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Abra o olho!

Basta andar por algumas das mais movimentadas ruas ou praças do Centro de Curitiba para ser abordado por uma pessoa, que prontamente se apresenta e faz uma proposta tentadora, especialmente em tempos de crise financeira e dinheiro “curto”, como os atuais: “Faça um teste de visão na hora, sem custo nenhum e saiba se você tem problemas para enxergar ou se precisa de óculos”.

Quem aceita o convite é logo encaminhado para uma ótica nas imediações, que oferece o teste visual grátis. Na loja, após breve conversa com o vendedor, o teste é feito pelo funcionário, em um aparelho aparentemente simples, instalado geralmente perto da entrada da ótica, ao lado de um grande banner, que anuncia a “promoção”. Situação que se repete em diversas das 11 lojas da rede Óticas Visomaxx.

Para entender como os testes de visão são feitos, a equipe da Tribuna esteve em algumas lojas e se submeteu ao exame por duas vezes no último dia 5 de julho, sem se identificar. Na primeira loja das Óticas Visomaxx, na Rua XV de Novembro, eu fiz o teste, que consiste em ler com cada um dos olhos, separadamente, as letras e símbolos que são apresentados em linhas de tamanhos diferentes, utilizando a Tabela de Snellen. Com base nos acertos que fiz, o vendedor avaliou minha acuidade visual, que é a capacidade de enxergar com nitidez em determinadas distâncias.

“Parceiros”

Ao final do exame, ouvi do vendedor que tenho dificuldade de visão, para ver de perto e de longe, precisando de óculos, mesmo após ter passado por uma cirurgia a laser, sendo liberada dos óculos por meu oftalmologista de confiança. Após o procedimento, recebi do funcionário informações sobre lentes e armações (e valores) e também a indicação para ir até um médico parceiro da ótica, que possui consultório perto dali. Agindo assim, eu poderia receber o valor pago pela consulta como desconto na compra dos óculos.

Entidades médicas condenam testes de visão feitos por óticas. Foto: Felipe Rosa

Entidades médicas condenam testes de visão feitos por óticas. Foto: Felipe Rosa

Em outra loja da mesma rede, na Travessa Oliveira Bello, a situação se repetiu, com o teste feito em condições muito parecidas. Após passar pelo equipamento, também fui orientada a consultar um médico em um consultório do Centro. Já na loja da Rua Monsenhor Celso não fiz o teste, pois não havia equipamento. Segundo os vendedores que me atenderam, exames de visão só podem ser feitos por médicos. Mas “para ajudar”, eles informaram que poderiam agendar para mim uma consulta com um oftalmologista recomendado pela Visomaxx. Ele me atenderia com horário marcado e, saindo de lá, eu teria descontado em meus novos óculos o valor pago pela consulta, que era de R$ 50.

Andando pelo Centro, encontrei o teste visual gratuito oferecido em panfletos entregues por funcionários das Óticas Revix. Porém, nesta loja a vendedora não quis fazer o exame e disse que o aparelho é pouco utilizado, sendo melhor, segundo ela, procurar um médico oftalmologista. Em visitas a diversas lojas de outras óticas na área central, o serviço não era oferecido. Nestes estabelecimentos, ouvi a recomendação para procurar médicos especialistas, em clínicas e hospitais confiáveis.

Prática ilegal

Segundo o médico oftalmologista João Alberto Holanda de Freitas, ex-presidente e membro do conselho consultivo da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO), é condenável realizar exames de visão em óticas, mesmo os mais simples, pois ao se submeter ao teste, o cliente acredita estar fazendo uma avaliação global da sua saúde ocular. “E isto acaba deixando sem diagnóstico muitas doenças oculares que poderão levar até a cegueira”.

Equipamento usado no teste visual. Foto: Felipe Rosa

Equipamento usado no teste visual. Foto: Felipe Rosa

De acordo com Freitas, os aparelhos utilizados nas óticas podem até ser de boa qualidade, o que não garante a confiabilidade dos resultados obtidos nos testes. “Quem faz diagnóstico é o médico e não o balconista da ótica. E fazer exames com um vendedor é ilegal, eles não têm competência para concluir se o cliente tem ou não uma doença ocular”, ressalta o oftalmologista, lembrando que nem mesmo o optometrista pode assumir esta função.

“O optometrista não tem competência para estabelecer um consultório e receitar óculos. Isto é atribuição médica. O optometrista é um auxiliar do oftalmologista e sua atividade deve ser junto ao médico, dentro de sua clínica. Aí é o seu lugar, onde pode praticar a sua profissão”, esclarece.

De acordo com a SBO, por lei, até o exame de acuidade visual só pode ser feito por médico oftalmologista. A entidade reforça que ótica só deve, por lei, vender óculos – os de grau, apenas com receita do médico oftalmologista.

Venda casada

Conforme o oftalmologista membro da SBO, descontar na venda dos óculos o valor da consulta cobrada por um médico indicado pela ótica também é proibido. “Isso não pode, é venda casada, que deve ser condenada. Com a receita na mão o cliente tem a liberdade de escolher a loja para aviar a sua receita”. Outra prática condenada pela SOB é abordagem às pessoas e a utilização de panfletos ou banners, anunciando os testes de visão. “Não é permitido, isso fica para os magazines”.

Alguns vendedores indicaram oftalmologistas e deram "cheque-desconto" de R$ 50 na compra do óculos. Foto: Felipe Rosa

Alguns vendedores indicaram oftalmologistas e deram “cheque-desconto” de R$ 50 na compra do óculos. Foto: Felipe Rosa

Ato médico

O presidente do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), médico Wilmar Mendonça Guimarães, reforça que testes e exames são atividades reservadas aos médicos. “Fazer exames em óticas é uma coisa ilícita. A lei do ato médico diz que o diagnóstico de doença e enfermidades é um ato médico. Não pode o optometrista fazer isto, pior ainda se não for um profissional da área. Exames mais simples também são diagnóstico, de doença ou de normalidade, sendo prerrogativas da profissão médica”.

Comuns no passado, segundo o médico, estes problemas são menos frequentes, mas ainda acontecem. “Sempre que o conselho tem informações sobre isso, a gente faz uma fiscalização. O conselho tem feito fiscalizações em óticas e nós temos retirado os médicos que têm espaços cedidos por elas. No Paraná, no passado, as óticas mantinham médicos anexos, no andar de cima, no imóvel ao lado e nós conversamos com todo mundo e recomendamos que isto não acontecesse mais. Que não tivesse mais a ingerência de interesses terceiros na atividade do médico”, afirma o presidente do CRM-PR.

Segundo Guimarães, o médico que agir assim pode passar por um processo ético profissional, previsto no Código de Ética Médica. De acordo com ele, propaganda com banners e abordagens tendo os testes como chamariz também são consideradas inadequadas pelo Conselho Regional de Medicina. As denúncias podem ser feitas pelo www.crmpr.org.br/

Pedro Piccoli: muitas coisas podem passar escondidas em um exame simples. Foto: Felipe Rosa

Pedro Piccoli: muitas coisas podem passar escondidas em um exame simples. Foto: Felipe Rosa

Procure um especialista!

Para se proteger e garantir a saúde dos olhos, a recomendação do médico oftalmologista Pedro Piccoli, do Hospital Barigui de Oftalmologia, é procurar um médico oftalmologista, capacitado para um exame de maneira correta. “Em um exame oftalmológico básico, de entrada, a gente sempre analisa fundo de olho, pesquisa pressão ocular, não basta medir a pressão, tem que matizar a pressão ocular com a qualidade de olho e espessura de córnea, uma série de detalhes que vão nos informar risco de glaucoma, por exemplo. São muitas coisas que podem passar escondidas em um exame simples ou de medida de grau, entre eles problemas relacionados ao diabetes. Por isso, procure sempre seu médico e peça orientação para ele”.

RECOMENDAÇÕES

* Consultar periodicamente o seu oftalmologista pelo menos uma vez ao ano.

* Ficar atento a sinais e sintomas como:
– olho vermelho;
– dor de cabeça;
– visão turva ou flutuante;
– flashes luminosos;
– pontos pretos na visão;
– dor ocular;
– cansaço visual a leitura;
– lacrimejamento.

Apresentando estes sintomas, procure seu médico oftalmologista.

Fonte: Sociedade Brasileira de Oftalmologia

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